LOUVO MINHA MÃE
Paulo Gondim
Não vou escrever como a maioria escreve
Versos de lamento, de desculpas
Pela perda da mãe.
Já escrevei, não escrevo mais
Hoje, escrevo versos de louvor
De agradecimento, de ternura
De reconhecimento, de amor
Por quem nesta vida, se fez vida
Não dispensou aventura
Na defesa da cria indefesa
Como fortaleza, nua e crua.
Por isso louvo essa criatura
Corajosa, forte, destemida
Que divide com Deus
A continuidade da vida
Ela pare, Ele (Deus) cria
Dizem os pobres na sua crença fria
Mas é a ela que buscamos
Nas horas de agonia
Por isso não choro a perda,
Já chorei, não choro mais!
Tenho boa lembrança
De amor, de esperança
Daquela mulher franzina
Miúda, mas de muita coragem!
Que guiou meus passos
Me deu muitas surras
Pra me fazer homem
E estava certa: me fez..
Por isso, agradeço e sorrio
Quando me lembro dela
E me sinto feliz
Porque sou na vida
Pelo menos parte
Do que ela sempre quis!
É ASSIM O MEU AMOR
Paulo Gondim
08/04/2008
Infinitamente, te amarei
Mesmo que tudo conspire contra mim
Eu enfrentarei todos e tudo
Não medirei esforço, gritarei te amo!
De peito aberto. Jamais ficarei mudo
Mesmo que todo o mundo fique contra
Encontrarei forças para continuar
Tornar-me-ei forte, destemido
Jamais terei medo de te amar
É assim o meu amor por ti
Capaz de remover as mais altas montanhas
Escalar picos, romper oceanos
Um amor forte, como a natureza
Capaz de realizar todos os meus planos
E por onde quer que vás
Contigo estarei, ali, sempre por perto
Nos meus sonhos, na minha saudade
Na lembrança terna de tua ausência
Para meu prazer, para minha vaidade
Ah... Essas mulheres....
Paulo Gondim
27/03/2008
Ah... Essas mulheres...
Que aparecem como a luz
Brilham, fogem, escapam
Num faz de conta que a tudo seduz
E no redemoinho que me conduz
Vejo-me como folha seca, voando,
Sem saber onde vou parar
E, assim, deixo o vento me levar
A beleza de uma, a sedução
O caminhar leve, fascinante
No balançar suave dos quadris
Em gestos sempre sutis
A alegria de outra, a satisfação
No encontrar furtivo, no olhar altivo
Na coragem de bater com a vida
De frente, sem medo, atrevida
A dependência de outra, a fraqueza
Que antes usou como esperteza
Pra conseguir sucesso e afeto
E me mantém sempre por perto
Outras pacientes, carentes
Esperam sua vez, passivas
Nada reclamam, apenas amam
Aproveitam o que a vida pode dar
Sabem que sua hora vai chegar
LEITURA DE PÁSCOA
Paulo Gondim
19/03/2008
Meros idólatras
Hipócritas
Idiotas
O que são
Escravos do consumo
Num sempre querer mais
De insatisfeita vontade
Pura vaidade
E seguem beligerantes
Em batalhas extravagantes
Imaginárias, mas seguem
Em absurda competição
O limite é céu
Mesmo sem troféu
É o homem só
Atirado à disputa
Nessa inglória luta
Que é seu viver
Em nada mas crer
Não há mais virtude
E sua atitude
Não lhe deixa ver
A misericórdia
A comiseração
E que anda a seu lado
Também seu irmão
E sem compaixão
Sozinho, calado
Um crucificado
Mais um sem perdão
JANELAS DA ALMA
Paulo Gondim
15/03/2008
Eu me vejo preso no meu pensamento
Enclausurado nos meus dias de tormento
Envolto em névoa fria, fosca, espessa
Que me expõe as entranhas, nesse padecer
Do lamentar diário, desse calvário
Que é minha vida sem você
E tento escapar pelas janelas da alma
Dou voltas pelo quarto, perco a calma
Olho mais uma vez a rua, a rua escura
A mesma rua que me viu crescer
Que já não é a mesma, envelheceu
Como eu, que perdi anos, sem te ver
E continuo preso, inerte, sem saída
Na expiação de minha culpa tão doída
Escapar dessa agonia é o que me importa
Antes que se torne em mim obsessão
Que já se avizinha, que já se prenuncia
Como castigo de viver só esta paixão
E aí, mais uma vez, nas janelas da alma
Olho para fora e vejo amarelada palma
Do velho coqueiro em frente à porta
Nele, vejo tuas mãos, agitando os dedos
Como sonho, que vagamente me conforta
E que ouve, calado, meus segredos
A MORTE DO OPERÁRIO
Paulo Gondim
09/03/2008
Um fato qualquer. Sem importância
Assim foi a morte do pobre operário
Até houve um choro natural
Dos primeiros minutos
Das primeiras horas
Nem um dia se completou
No dia seguinte, a realidade.
Morto pobre não deixa saudade
Para os filhos, a liberdade
Que antes já tinham, contra sua vontade
Por muito desprezo, falta de respeito
Era o que recebia, na vida sem valia
A mulher, no seu jeito sempre roto
Nem chorou. Nem simulou
(Acho até que festejou...)
Marido bom é marido morto!
E viverão, filhos, netos e a esposa ausente
Que mal no velório se fez presente
Da minguada e escassa pensão, mas viverão
Será mais simples a divisão
Sem o marido, sem o pai, sobra mais ração
Sobra mais dinheiro no fim do mês
Viverão melhores, na sua pequenez
Enganados, acomodados na sua mesquinhez
Vão viver à custa dessa mísera pensão
Improdutivos, até que gastem o último tostão
MEU LADO MULHER
Paulo Gondim
07/03/2008
Pensei com o meu lado mulher
Achou estranho? Você também tem!
Assim como seu lado certo na cama
E se você quer saber
Homem também morre de câncer de mama
Aí, como toda mulher moderna, no salto
Levantei cedo para o trabalho
Dentro de um ônibus lotado
E percebi meu sutiã furado
A meia-calça rasgada
Um sujeito roncando ao lado
Depois de alguns solavancos
De muitas filas nos bancos
Todo o dia foi um saco
Pensei naquele casaco
Que há tempos quero comprar
Mas vai ficando de lado
Pois é no supermercado
Que a grana vou deixar
E assim é todo dia
Passa mês e passa ano
E eu nesse desengano
Que não sei se vai parar
Eu vivo sempre cansada
Eita “vida desgraçada”
O que fui eu arranjarr?
Aí, pensei como homem
É melhor não ser mulher
Mulher é coisa de louco
Olhem só o meu sufoco
Porque quis me comparar
Ou comparação maluca
Vejam só em que sinuca
Eu entrei só em pensar
Só mesmo mulher suporta
Essa vida atribulada
Homem não sabe é de nada
E quer ser superior
Quer saber? Não vale é nada!
Devia é tomar vergonha
E dizer sem cerimônia
E sem medo de errar
“Eu sou mesmo inferior
A mulher tem mais valor
Tenho mesmo é que aceitar”
ESTRELAS SÃO
DIAMANTES
Paulo Gondim
02/03/2008
Os diamantes brilham no claro véu
São minhas lágrimas, num choro calado
Que fazem cintilar a estrelas no céu
Os diamantes não têm brilho ofuscado
E minhas lágrimas caem, regam flores
Que brotam nas gotas do orvalho
Rosas que amenizam minhas dores
Estrelas mil que pelo chão espalho
Os diamantes no céu são estrelas
Que clareiam o céu na imensidão
Choro eu, se não consigo vê-las
E pegá-las uma a uma em cada mão
Lágrimas no rosto são saudade
Estrelas no céu são diamantes
O amor quando finda é crueldade
No coração sofrido dos amantes
SIMULAÇÃO
Paulo Gondim
06/12/2006
Vivemos por viver
Por comodismo falso
Já que nada mais resta
Nesse fim de festa
Que são nossas vidas
A felicidade do encontro
Deu lugar à indiferença
E com ela, veio a descrença
O faz-de-conta, a simulação
Já não sinto melodia em tua voz
Mas, prenúncio de conflito
E por assim ser, reflito
Se há remédio para nós...
E nesse triste simulacro
Que se tornou nossa relação
Contrito, eu me peço perdão
Por não ter força nem coragem
De romper a farsa
Sair dessa desgraça
E apagar de vez essa imagem
Que insiste em se mostrar
Nesse espelho fosco, antigo
Que são meus dias contigo
ESPERA
Paulo Gondim
01/03/2008
Sabes, eu já falei tudo o que pude
Procurei frases novas, inventei palavras
Criei novos enredos, revisei tudo
Corrigi os erros, grifei parágrafos
Mas acabei ficando mudo
Não consegui te convencer
Todo o meu esforço foi em vão
Expus meu peito, abri o coração
Desvendei todos meus segredos
Afugentei todos os meus medos
Mesmo assim, só ouvi um não
Mas vou ficar por aqui. Baixo a guarda.
Como cordeiro que se imola, não berro
Quero ver até quando eu te espero
Vou disputar comigo mesmo
E quando tu voltares (há sempre a volta)
Estarei aqui, com flores, a te abrir a porta
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