Sol

Foto de Ge Fazio

Marcas de um Tempo

Gotejas o orvalho sobre a relva densa...
Numa tarde do frio inverno.
Pássaros recolhem no aconchego de
Seu ninho... Alimenta, aninha.

Toques de emoções emergem de
Um coração sem par... Solitário.
Num olhar através do tempo
Da distância sórdida...

Goteja o amor de um olhar
Terno, transparente que outrora.
Passou por aqui... Chegando
Pelo velho rio de águas claras

Vem o vento...A chuva e o sol
As tormentas que transbordam
Lavando em enxurradas os rastros
De seus passos... Levando o aroma do amor.

Restam agora as marcas de um tempo.
Os vincos de uma saudade cravejada
Na pele, nos contornos que resguarda...
Protege um invólucro do amor perene.

Gotejam lá fora o orvalho.
Numa rua nua, crua sem nome e sem dono.
Resta agora um jardim sem cor, sem aroma.
A espera do amor que faz germinar.

Germinar de novo o sorriso...
O brilho do olhar da esperança
Junto às folhas secas de outono.
Renasce um jardim em flor...

Ge Fazio

Foto de Lou Poulit

As Nossas Manhãs

Porque são as manhãs
Tão humildes manhãs
Saram o que as noites cortam
Lavam, abortam estrelas vãs
Vem que me desperta
Essa rosa madura
Sob a renda flerta
Captura o meu instinto, vem
Me joga no orvalho do jardim.

Vem de mim por ruas dormidas
Que dores banidas
Não despertarão tão cedo...
E ninguém contará a ninguém
Que ainda tenho medo...
Porque são as manhãs
Tão humildes manhãs.

Porque são a manhãs
Tão lúcidas manhãs
No estreito vão da janela
Um corpo que foi meu se esfarela
Num rastro distante
Guardo os pássaros no peito claro
Ardo... E perto me declaro amante
Vestindo as chamas
Que restam das velas
Dançando com elas, beijo
Beijo e protejo o seu despertar.

Porque são de carícias
As nossas milícias
Cavalgadas e reconquistas
Quando o sol entrar pela janela
Jamais sairá nas revistas...
Mas são nossas manhãs
As mais belas manhãs.

Foto de Anandini

Só,estou só agora...

Fez-s o dia...
O sol nascente,puro no horizonte...
de um azul infinito...
Não quero enfrentar esse dia,queria que não existisse.
A noite se foi...acabou...
Arrastou-se lentamente sem querer partir de meu leito,
um sarcófago de tristeza sem fim...
Agora tenho a certeza que estava enganada,iludida.
Foi apenas uma confusão...
Meu amor por tí era tão intenso que
transbordou para fora de meu peito
escorreu,e chegou até você!
Na verdade não me amaste em momento algum...
Tudo que escreveste era apenas um reflexo
do amor intenso que transmiti a você.
Agora sofro...
Minhas lagrimas corroem minha alma,
meus olhos se fecham para a noite e para o dia...
Não quero que o sol toque minha pele...
Não quero a intensidade do azul do céu,
O sol é quente,as cores são fortes...
Me arremetem a palheta de um arco-iris
Os pincéis do meu artista favorito...
As cores agora também me levam até você.
A pintura de uma paixão avasaladora,
está manchada,com a mistura da tinta de suas mãos...
Borrou...Está cinza... Perdeu a cor a vida.
Meu coração está triste,pequeno
amargurado em meu peito...
Sinto a solidão de um amor não correspondido.
Você jamais me quis...
Porque alimentaste meu desejo ,e deste força para esse amor
que toma conta de meu ser?
Porque disseste que me queria tanto?
Me deste a chave dourada,mas agora
me deixa aos prantos?
Não posso ao menos sofrer de saudade...
saudade do que?
Se não tive você....
Queria seu abraço,lento apertado...
Seu beijo,intenso ...molhado...
Queria guardar ao menos a lembrança
do suor de seu corpo
confundido com o meu!
mas resta-me apenas ficar sozinha...
Abrir meu e-mail e ver que te perdi
Nem uma palavra...
nem uma letra sequer,me deixou...
Mas como te perdi?
Se nem pude te encontrar....
Não tenho sequer o gosto amargo
da lembrança,para corroer esse vazio
Meu leito é como um tumulo
triste,morto,sem você...
Suas palavras em meu ouvido...
soaram como uma marcha funebre
matando o desejo infiltrado em meu ventre....
Palavras outrora,que seriam de prazer...
de paixão de tesão...
Morreram...
Você as enterrou,nem ao menos
quis vê-las crescer...
desabrochar...
Murchou a flor de minha emoção...
Po que fizeste assim?
Porque me abandona ao léu?
Por que perdeu a coragem de enfrentar o sentimento
Que nasceu em tí?
Tiraste as forças
para eu enfrentar meus dias...
Não quero abrir os olhos...
Abaixo minha cabeça...
choro...
soluço...
debruçada nesta folha de papel...
Se tinha algo para mim,cadê?
onde está?
Entregue-me o universo de seu corpo em extase...
Me afague,me aconchegue em seu peito...
Não me deixe sofrer assim...
Um amor sem dono,sem ponto
sem direção...
Cadê sua ousadia?
Onde está a força,o ímpeto que te impulsionaria,
ao prazer proibido...
Será que jamais existiu?
Acho que sonhei...
As mulheres é que são loucas!!!
Enlouquecem de amor...
e se arremetem pra dentro desse vulcão,
chamado amor...
Mas as lavas foram grandes..
Cobriram-me antes da hora!
Quero que se aposse de meu corpo..
Me cubra com seu desejo....
Seria simples...
Como dois e dois,são quatro...
Me apaixonei,isso é um fato...
mas não sou correspondida.
Meu coração está no chão...
pisado,esmagado,lavado...
pelas ondas de tristeza,
do mar de meus olhos...
O mar, a areia,o céu,a poesia...
Ah! doce poesia...
Todos me deixaram só!
Fizeram em miúdos,meu coraçãozinho....
Fragil,delicado...
Que agora bate bem devagarinho...
quase em tempo de morrer.
Você é meu anjo bom
Você ,é o desejo destruido
tragado pelo tempo
que não quis ser testemunha
dessa paixão...
Quem sabe o que será de mim agora.
Não sei como serão os dias,
sem a alegria de seu sorriso...
sem a ternura de seus olhos...
Por isso peço,não vá embora...
Não vá,não vá
Não bata a porta
não me dê as costas...
Não me deixe sofrer assim............................................

Foto de Lou Poulit

O Trovão e o Sabiá Sereno

Sentada sob alpendre da mansão colonial, sua fortaleza de toda a vida, Sinhá havia se perdido em seus pensamentos. O dia havia se despedido há pouco, na apoteose fugaz de um céu prestante de cores e texturas, que de tudo o que pode tentou fazer para merecer a atenção da moça. Nem a sinfonia da passarada fez efeito. Tudo em vão, restaram as estrelas que nem sequer se aventuravam. A passarada se calou para dar a vez aos grilos, sapos e outros barulhentos notívagos. Sinhá revirava mecanicamente os fartos rendados da saia à sua volta, pois de fato não estava ali.

Então, passos arrastados vindos de dentro precipitaram-na do etéreo, de volta ao corpinho magoado pela posição pouco cômoda. De tão surpresa e assustada, não teve coragem de se virar. E esperou apenas, como seu sangue esperava dentro das veias. Aos poucos uma luz tênue, mas capaz de expulsar soberanamente a escuridão, se aproximou. Depois mais um pouco. A moça temeu que se aproximasse ainda mais e explodiu em gritos nervosos: Saia já daqui! O que quer de mim, demônio? Eu não lhe chamei aqui!

A pouca distância um caboclo mulato de aspecto impressionante, pele muito morena e os olhos claríssimos de uma onça enterrados no rosto embrutecido, como pequenas gemas raras no emboço úmido da terra adubada pelos séculos. O velho Sereno segurava a candeia, tentando compreender, tão próxima, a moça que à distância vira crescer, como flor única naquelas glebas. Durante parcos segundos, Sinhá não conseguiu balbuciar uma palavra. Tentava decifrar como aquela figura estranha havia invadido seu silêncio, que significado poderia ter dentro dele e se seria perigoso para as coisas ricas que guardava em segredo. Porém, achando que o silêncio era ainda mais insuportável, a moça voltou à carga: Quem lhe deu o direito de estar aqui? Ele tentou explicar: Vim só alumiá o negrume da noite pra vosmicê, Sinhazinha... Carecia de se assustá não... Não tenho medo de nada, ela empinou a própria fragilidade. Como poderia temer um empregado dentro da casa do senhor meu pai? Ademais, estava aqui com meus pensamentos...

O homem olhava com segurança os olhos escorridos de lágrimas da moça, cheios de brilhos amarelados pela chama da candeia. Sentia pena dela, mas sabia pelas décadas de convívio que não se devia manifestar piedade para com os senhores. Sereno sabe que está triste, Sinhá. Ma num pode fazê nada não, disse ele abaixando os olhos. Mas como pode saber disso? Não lhe dou esse direito. De onde você saiu?... Ainda com os olhos baixos, ele respondeu: Sempre estive aqui, Sinhazinha. Vim pra essas terras do senhor seu pai na barriga da minha mãe, que se foi embora amarrada naquele pé-de-jurema-branca, bem ali na direção onde a lua vai nascer já. Eu era desse tamaninho, cabia no cesto onde o alazão comia o seu mio. Naquele tempo o capataz era um homenzinho muito do ruim... Ela só queria alimentar a sua cria...

A moça se refez da letargia quando o ouviu falar no alazão, tornando a gritar: Não me fale do meu alazão. Eu amava o Trovão como se fosse uma pessoa! Ninguém montava nele além de mim! E acabaram de trazê-lo num arrasto de pau-de-mangue... Ele estava morto! E eu vou matar quem fez isso com ele... E a chorar convulsivamente ela recostou-se no portal, até sentar-se de novo no degrau do alpendre. Sereno continuou calado, imóvel, com os olhos cravados nas lages do chão. Como se sua alma cansada procurasse uma brecha para um imenso arrependimento.

Tentando descobrir em seu próprio silêncio o que deveria fazer naquela situação triste e constrangedora, o velho caboclo foi lentamente até a arandela pendurar a candeia. Não sabia o que fazer a mais. Durante quase vinte anos quisera ajudá-la em muitas situações de perigo, mas sempre chegava alguém antes. Sereno trabalhara sempre na plantação, às vezes tratando dos cavalos doentes e outras como mateiro. Amava a menina, antecipava os riscos que ela corria, mas haviam outros mais próximos dela. E agora o mesmo sentimento de proteção lhe parecia palpável de tão denso. E ironicamente, embora estivessem ali apenas os dois, simplesmente não sabia o que fazer.

Passados alguns poucos e imensos minutos, a moça quebrou o silêncio, mais calma, porém sem perder a altivez da voz: Como se chama? Sereno, Sinhazinha - disse ele. E porque está aqui, nunca lhe vi dentro de casa?... O velho empurrou a aba do chapéu para trás e coçou a calva rala e branca, como sempre fazia quando se sentia inseguro. Demorou um pouquinho mas respondeu: Eu vim de pés lá de trás da serra dos pastos... O senhor seu pai mandou que me alimentasse e ficasse por aqui até amanhecer. Ela insistiu: Mas por que veio de pés? Ah, Sinhazinha, parei no meio da mata para ouvir o sabiá-da-mata, tava cantando bem em cima de mim. Desde menino adoro os sabiás, num gaio da mangueira, por cima da minha palhoça tem um que fez ninho agora. Quando passo o café da tarde ele tá arrebentando os peitos, de tanto chamá uma fêmea pro seu ninho novinho e arrumadinho. Mas me distraí, meu cavalo assustou-se com a onça e saiu desembestado, nem sei pra onde. Mas vou lá buscar, pro seu pai meu senhor num ficá num prejuízo maió. Não é um bicho caro, é até meio capenga... Mas é um bom companheiro, num sabe? Vendo a perplexidade dela, ele perguntou: Que foi Sinhá, com essa boca aberta, quem nem peixe morto? A moça sussurrou: Onça?... Que onça é essa, Sereno?

O velho respirou profundamente. Não haveria mais de esconder. Ela que soubesse a verdade e que fizesse o que achasse justo. Disse a ela com segurança: a mesma que pegou o Trovão... Aquele sangue todo foi porque quando cheguei ela já tinha garrado no pescoço dele – disse caboclo limpando instintivamente as mãos grosseiras nas calças. A moça mostrou-se inconformada: E você não fez nada para ajudar o coitado? Não tinha uma arma, Sereno? Sinhazinha, ele caiu por cima da bicha, esperneava como um porco endemoninhado... Endemoninhado é você, miserável! Ele era o alazão mais valente que conheci... Só que havia uma onça mordendo o seu pescoço... E um homem medroso e inútil assistindo a sua morte desesperada! Que queria que o Trovão fizesse?... Sereno, se calou constrangido. E ela quis saber mais: E depois, Sereno?... Sinhazinha, num é nada fácil chegar perto de dois bichos grandes e raivosos... E eu só tinha mesmo o meu facão de mato e não queria ferir ainda mais o Trovão. Sim, mas o que você fez? – ela implacável. Eu nada, Sinhazinha, a onça é que resolveu desaparecer. Onça é um bicho covarde. Só pega pelas costas, sangra e espera morrer. Mas se sentindo insegura ela larga e fica de longe só espiando. Esperando a hora de comer sossegada. E o outro, que também é bicho, sabe que vai morrer e que ela vai vir lhe rasgar as tripas. É só uma questão de tempo... O mundo dos bichos é assim mesmo, Sinhá. Ninguém muda não. Vosmicê ta triste e eu também... Mas o Trovão tá não... Só tá esperando os primeiros lampejos do dia, pra correr por essas terras sem fim, pelos campos e pelas matas fechadas, num tem mais nada que lhe impeça... Vai conhecer todos os lugares onde nunca tinha ido, vai beber água do rio grande e vai saltar nas ondas da praia... Enquanto isso nós vai fica aqui chorando de tristeza, porque num pensa que ele ta livre como nunca foi... É que como nós só sente o sentimento da gente, só pensa com a cabeça da gente, então acha que o trovão ta sentindo e pensando a mesma coisa, Sinhazinha... Não tenha raiva não... Que ele não pode aparecer pra vosmicê e lhe contá como que é lá donde ele vem, ele vai ficar triste por causa da sua tristeza...

A moça se esforçava para aceitar aquela sabedoria estranha, que quase desdenhava os seus mais puros sentimentos, todas as coisas que aprendera a sentir. Mas, embora não tivesse coragem de dizê-lo, até que gostava muito de imaginar seu querido Trovão suando da correria que tanto amava, brilhando ao sol e ao luar. Ele amava o vazio dos espaços, os obstáculos que vencia, amava o vento revirando as suas crinas, enchendo-lhe os pulmões no peito enorme e musculoso, e depois expirava com força fazendo seu próprio vento, era quase um deus da natureza... Ah, como ele gostava disso... – dizia a si mesma. Alagada da própria ternura, disse então ao velho: Ele lutou até o último instante não foi, Sereno?

Ele era valente demais, eu o conhecia desde que era um potrinho muito abusado... Sou lhe muito grata, quero que fique, se alimente bem e descanse bastante. E depois vá buscar o pangaré, antes que essa onça o coma, já que não comeu o Trovão, pois que os homens foram buscá-lo antes disso... Sereno sentia-se mais à vontade agora, já sentado também no degrau de baixo. E completou: Vou Sinhazinha, antes de clariá vou atrás dele. E ai dela que se meta... Faça isso por mim, Sereno – ela pediu com raiva.

Não posso prometer, Sinhazinha... Não Sereno, não se arrisque, leve uma arma... E se ela lhe pegar pelo pescoço, como fez com o Trovão?... Vosmicê num fique triste não, Sinhá... Também sou meio bicho, já fiz muita coisa nesse mundo de meu Deus... Já matei oito onças, seu pai meu senhor pode lhe dizer... Uma delas ia morder era o pescoço dele... É que de uns anos pra cá elas estavam sumidas, que os cachorros farejam a catinga delas de longe... Gato tem raiva de cachorro e vice-versa, num sabe?

Eu prometo, Sereno. Vou contar para os meus netinhos essa estória. E vou me lembrar de dizer que você foi um herói, que não pode salvar o Trovão, mas veio de pés buscar homens, para que ele tivesse um enterro digno. Meus netinhos vão aprender a odiar todas as onças, porque essa matou o Trovão... Mas eis que tais palavras indignaram o velho filho-do-mato, e ele quis ser exato: Não, Sinhazinha... Isso não é certo, não é verdade não... Como, Sereno? Se ela não matou o meu alazão, então quem foi?... Fui eu mesmo, Sinhazinha... A moça de um pinote ficou de pé, com o dedo em riste, enfurecida lhe disse: Seu traidor! Vá embora, suma daqui! Nunca mais quero ver sua cara! Não vou lhe perdoar jamais! Vai... Antes que eu grite por alguém para lhe surrar no pé-de-jurema, desgraçado!

Naufragados novamente em profunda tristeza, ambos se foram. Ela para chorar na cama e ele no mato. Mas nenhum dos dois conseguiu dormir. A moça rolou na cama, sobre o lençol úmido das suas lágrimas, até que lhe viessem chamar para o almoço. Não foi. À tarde, na hora da refeição também não quis sair do quarto, deixando a todos apavorados. Seu pai começou a preocupar-se, vendo que as mucamas não paravam de cochichar pelos cantos. Resolveu-se a sacudi-la. Entrou no quarto como um furacão para intimidá-la e foi querendo saber o porque daquele drama. Sabia o porque, também sentia muito pelo alazão, sabia o valor que tinha, mas não queria perder também a filha. Sinhá estava desolada e não apenas pelo seu Trovão. As horas lentas da madrugada lhe convenceram de que havia sido injusta com o Sereno. Estava agora claro que quisera apenas poupar o animal de mais sofrimento. Não podia carregá-lo nas costas e com certeza não quis que o alazão assistisse a desgraçada da onça comer-lhe as carnes ainda vivas. Ela estava soterrada de remorso e com muito jeito fez o velho concordar em mandar buscá-lo. Assim também concordou em levantar-se para se banhar e voltar à vida normalmente.

Alguns dias depois estava novamente sentada no alpendre, mas dessa vez assistiu a obra da natureza que se comprazia em dispor da sua atenção. O dia terminou. Escureceu por completo. Ela se lembrou da noite em que se assustou com Sereno. Dessa vez queria imensamente que ele lhe trouxesse a candeia. Havia preparado algumas palavras para lhe pedir que perdoasse a grosseria. Ninguém lhe dissera uma palavra durante esses dias, tinha a impressão cada vez mais densa de que não lhe queriam falar a respeito. Uma luz veio de dentro, mas pelo andar sem botas não poderia ser Sereno. Era uma mucama, que foi dispensada. Sinhá só queria a luz do velho caboclo, como naquela noite. Agora queria gostar dele, da sua sabedoria e da sua paz. A lua começou a aflorar, derramando seu prateado pelas colinas que pareciam abraçar em segurança a mansão. De repente, algo mexia nas folhas do pé-de-jurema-branca, que pareciam lhe acenar variando o reflexo do luar. Então, para sua imensa surpresa ouviu com nitidez o canto mavioso de um sabiá... Mas como? Sabiá cantando há essa hora? Não pode ser... Não queria aceitar o que seu próprio silêncio lhe dizia, lutava contra com todas as suas forças... Então ouviu de novo, logo ouviu outra vez e de novo tornou a ouvir... As defesas que havia erguido em si própria foram ruindo a cada canto, como se fossem rojões de poderosos canhões. Até que não pode mais sustentar a certeza que preferia. O sabiá só podia estar feliz. Tão feliz que nem se importava com a noite, não queria esperar o amanhecer! Se quisesse vê-lo sempre feliz, devia afastar a tristeza. Libertá-lo do próprio peito para que fosse completamente livre, para que cantasse onde quisesse e quando quisesse. Seu canto não era triste como o de outros, mas vigoroso e doce como o de uma flauta da natureza. A mucama voltou com um semblante pávido, mas quedou-se quando à luz da candeia viu que o de sua Sinhazinha sorria para a lua, já em seu esplendor. A mucama lhe disse: Sinhazinha, o seu pai mandou meu irmão e me primo buscar o Sereno... Mas eles não querem falar, estão com medo. Medo de que? Diga logo... Não fica brava comigo não Sinhazinha... Fala de uma vez, mulher... É que a onça pegou o Sereno também, Sinhazinha...

Completamente perplexa, a mucama ouviu a Sinhá lhe dizer com doçura: Não fique assim tão triste. Há essa hora ele deve estar bem assobiando por aí... Por onde, Sinhazinha?... Pela natureza, pelo céu, pelo rio grande, ou se lavando nas ondas do mar... A pobre mucama não conseguia atinar com aquelas palavras surpreendentes e Sinhá completou: Anda, pode deixar a candeia na arandela e vá pra dentro. Se precisar eu lhe chamo, agora vá. Quando mais tarde seu pai veio lhe buscar para dentro, aliviado pelas falas da mucama, encontrou-a bem disposta, quase feliz para aquelas circunstâncias. Sinhá aproveitara o tempo para fazer uma prece emocionada, repleta de gratidão e amizade, pela alma do velho Sereno. Durante toda vida estivera bem ali e nem o havia notado. Mas havia sido de grande valia justo no momento que mais precisou. Se estava feliz a ponto de assobiar no galho do pé-de-jurema àquelas horas, então deviam estar todos felizes: O Sereno, sua pobre mãe e também o Trovão. Não, não queria mais pensar em tristezas. Foi quando seu orgulhoso pai, sentindo necessidade de participar daquele momento lhe disse: Deixe estar, querida... Aquela maldita onça não irá longe... Eu me encarregarei disso pessoalmente.

Lou Poulit
Direitos Exclusivos do Autor

Foto de angela lugo

A dor de não o ter

O que será de mim sem ti?
Caminhando pela vida, sentindo seu perfume.
Que passa com alguém que não é você...
Quando a noite chegar deitar-me-ei em minha cama
irei te procurar e não te encontrarei,
Enrolar-me-ei nos lençóis vazios
farei do meu travesseiro a saudade
e do vazio do meu quarto a solidão
sem nem mesmo saber o que fazer.
Caminharei pelos meus sonhos e tentarei encontrá-lo
e se lá não estiveres, continuarei só, em meus caminhos
Mesmo que o procure por todas as estradas da vida
E lá não te encontrar, que será de mim meu amor?
Sem ti em minha vida o desespero vai tomar conta de mim
Irei assustar-me pela solidão...
Pelo sopro do vento...
Pelo calor do sol...
Pelo frio da manhã...
Pelo sacudir da razão,
que vai chamar minha atenção,
por tanto andar e não te encontrar.
A dor vai sucumbir a minh’alma, afetar meu coração.
Abalar a minha vida que não tem sentido,
sem tu meu amor querido.
Irá difundir este sofrer dentro do meu ser.
Alastrando-se pelo meu corpo,
que jaz aqui a te querer sem a mim tu pertencer

Foto de Hisalena

A tua boca...

A tua boca tem o mel das flores,
tem o calor de muitos amores,
tem o silêncio forte de muitas dores,
tem a brasa quente de muitos ardores,
tema a doçura mágica de mil sabores.
A tua boca tem o calor do sol de Verão,
tem a incerteza do sim que era não,
tem a chave do que fechas no coração,
tem a mais pura e doce tentação,
tem a sincera e verdadeira emoção.
A tua boca tem segredos por descobrir,
tem o amargo das lágrimas ao partir,
tem a magia que me faz ver e sentir,
tem o que ficou de um sonho ao cair,
tem mil segredos num cofre por abrir.
A tua boca é pouco mais que ilusão,
a tua boca é um sonho por concretizar,
a tua boca encerra essa doce sensação
de um beijo que apenas posso imaginar!
HP//

Foto de MARTE

NO SILÊNCIO DO MOMENTO

És a lua em noite escura

Para clarear o meu caminho

Sou o sol com chuva para

Mostrar-te o arco íris em

Meio ás gotas que caem em

Frente da tua janela

Sou o vento, a brisa fresca que

Te agrada, te refresca nas

Tardes quentes de verão

És o perfume das flores

Para me encheres de prazeres

Em madrugadas de amores

Sou o teu paraíso, me ato e

Desato para te ver sorrir

És a minha estrela guia que

Reflete a direção certa para

Onde tenho que ir

Sou o teu capricho a tua manhã

O teu pecado mais sublime

És o ar que necessito

Para respirar o meu caminho a seguir

Pois....

Como é bom sonhar com os olhos abertos!

http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=MARTE%2FJCARVALHO&btnG=Pesquisa+Google&meta=

Foto de PETERPAN

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Tudo o que escrevo tem uma razão
um sentido
não que eu seja
ou pretenda ser
o personagem principal
escrevo por necessidade
não para relatar uma história
mas para entrar subtilmente
e fazer brotar sentimentos
em cachoeira
para fazer florir as palavras
até ficar sem elas

Sabes
não sei pensar a propósito
mas sei partilhar
sei dar a conhecer
gostaria de conseguir escrever tudo
numa só história
num só texto
num só poema
numa só frase
numa palavra
numa sílaba
numa letra, apenas
mas não consigo
por isso o faço em várias etapas
de uma só prova
a vida

Faço, no entanto
parte delas
e vice-versa
os poemas e eu
são uma única história
uma só pessoa
um só nome
quem me conhecer, entenderá
quem os ler
me conhecerá
como vivo a vida
como escrevo nas veias
nas linhas
e nas entrelinhas
como sou linear
como procuro ser sucinto
basta ler e sentir
estar vivo
fechar os olhos
e ver

Abeirar da janela
num dia de chuva
vislumbrar o Sol
tremer de frio
e aquecer nas palavras
olhar no fundo dos olhos
chorar de alegria
por se estar vivo e lutar
amar por ser necessário
abrir o espírito
para poder respirar
chorar de felicidade
para sentir como é único poder viver
como é humano sentir dor,
alegria, arrepio
privilégio fazer parte da vida
fazer parte de uma história
termos tudo
sem possuirmos nada
e sentirmo-nos completos

PETERPAN

Foto de THOMASOBNETO

Perfume Selvagem

PERFUME SELVAGEM

Linda, selvagem e rebelde.
Sorriso de menina moça...
Charmoso e maliciosos por vezes.
Ruborizando o encanto da lua!

Teus cabelos livres ao vento,
Pareciam fios de pura seda.
Seus gestos eram plumas...
Vagando pela orla do tempo!

Teus olhos esverdeados...
Lembravam-me um cristal.
Lindos como a esmeralda...
Refletindo a luz do sol.

Deixando cair em teu corpo,
Provocadora as tuas vestes.
Eflúvio instintos carnais.
Exaltando os desejos insanos!

Por onde tu passavas, que emoção!
Na epopéia da metamorfose da vida...
Arrancava os mais ocultos segredos,
Incrustadas nas entranhas da alma!

Ao ouvir a tua voz, fecho os olhos.
Desejo sonhar a melodia dos deuses...
Entregar-me aos seus doces encantos.
Suspirar amor eterno nos braços teus!

THOMAZ BARONE NETO

Foto de Hisalena

Basta um sorriso...

Basta um sorriso teu para o mundo se encher de luz,
para o céu parecer muito mais intenso e azul,
para o mar parecer muito mais imenso e profundo,
basta um sorriso teu e a vida como ouro reluz,
basta um sorriso teu para me mostrar o norte e o sul,
basta um sorriso teu para me sentir dona do mundo.
Basta um sorriso teu para a vida valer a pena,
para o sol iluminar cada passo do meu dia,
para a luz me afastar das sombras desta solidão,
basta um sorriso teu e já não me sinto pequena,
basta um sorriso teu e tenho tudo o que queria,
basta um sorriso teu e tenho o mundo na mão!
HP//

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