Poemas

Foto de Isa Castro

Chuva na vidraça

A chuva bate na vidraça e, levemente,
sinto a apatia envolver-me docemente.
Deixo a minha alma entoar o cântico
da solidão, que congela todo o meu ser
e transforma a minha vida num mar turvo.
Escondo-me desde o amanhecer,
sou tão pequena, tímida e enjeitada,
que até parece que nasci amaldiçoada
pelos golpes desenhados na minha pele
nesta luta diária sem rumo nem liberdade.
Continuo ensaiar a tristeza com um sorriso,
banhando-me no rio do esquecimento
enquanto caminho e corro atrás do tempo.

Foto de pedacinhos de mim poemas

Quando Digitamos

Uma frase aqui,
outra acolá, vou juntando,
vou somando...
percebe que sempre tenta disfarçar
do quanto gosta de mim.
Mas é nessa somatória,
que vou juntando,
o teu desejo, a tua saudade,
que nunca declara,
na forma exata,
o que sentes por mim.
É difícil esconder por muito tempo
os nossos sentimentos,
e assim vai revelando
por entre linhas,
em uma conversa que surge
de maneira descontraída,
despercebida,
não intencionada.
Lá está escrito:
hoje pensei em você,
estou com saudades,
Quero você.
O nosso orgulho é sempre turrão,
mas confrontado com o nosso coração,
não tem essa não...
O amor é mais forte,
não há orgulho que sustente,
quando os sentimentos falam por você.
E meu coração em cumplicidade,
secretamente me dá um toque,
nessa hora eu me pega à sorrir.
por saber que gostas de mim.
Já é tarde, preciso ir dormi.
Te mando um beijo
E me levanto, suspirando feliz.

Célia Torres

Foto de Fernando Poeta

Destino

Se pudesse ter a certeza,
Que poderia arrancar meu coração,
E ainda assim iria sobreviver,
Assim eu o faria.

E a ti entregaria sem medo,
Em confiança de que iria protegê-lo,
Tornando-o teu,
Mantendo nosso segredo.

E neste ato de confiança,
Demonstraria a esperança,
De ter encontrado enfim,
A outra parte do que faltava em mim.

Pois tenho por verdade,
Tudo o que é dito,
E mesmo que não digas nada,
Entendo tua alma,
Pois entendo meu espírito.

Pois talvez o que fosse um,
Pode ter sido repartido,
E o que falta de minha parte,
Percebo estar contigo.

E ao acaso encontrei,
Sem perceber o quanto havia procurado,
Não conheço a mão que rege o destino,
Mas reconheço que meu destino,
Era ter lhe encontrado.

Do melhor que posso,
A ti entrego meu coração,
Ame-o, como a si mesmo,
Pois através dele,
Agora eu a protejo...

Foto de Fernando Poeta

Fala Comigo

Atrevo-me insistentemente,
A lutar contra o destino,
Sou inconseqüente, puro,
Acredito em mim,

Aceito o que me entregam,
Desfaço minhas amarras,
Nada me prende.

Não aceito o jogo alheio,
Faço meu próprio caminho,
Se estou em partes,
Sinto-me por inteiro.

Cada pedaço de meu ser,
É entregue à quem precisa,
Sou anjo, sou justiça, sou amigo.

Sou o teu melhor escudo
Fala-me o que quizeres,
Estou aqui,
Fala comigo...

Foto de Fernando Poeta

Um Dia Pelo Outro

Preparei meus planos,
Tracei minhas metas,
Planejei cuidadosamente,
O caminho para o sucesso e a felicidade.

Atendi a voz do coração,
Porém nem sempre ela está correta,
Não depende apenas dele,
O que desejo não depende apenas do meu querer...

Entendi e aprendi,
Através da dor causada pelo erro,
Que não sou o único nessa busca,
E que a estrada é longa e tortuosa.

Então aprendo todos os dias,
Ensinam-me todas as horas,
Que para atingir o que busco,
Atender a voz do coração que ouço...

Devo aprender a viver,
Um dia pelo outro!

Foto de Fernando Poeta

Palavras

O que são as palavras?
Como defini-las
Apenas forma de expressão,
Meio de comunicação?
Armas?

As palavras podem ser alicerces,
Podem ser persuasivas,
Podem ser calmantes,
Podem ser incentivadoras...

Podem ser tudo o que necessitamos,
Em momentos que tudo está errado,
Podem ser nossa sorte ou nossa ruína,
Palavras bem empregadas abrem portas...

Podemos falar o que pensamos,
Porém esta é a nossa imperfeição,
Quem fala o que pensa,
Condena o próprio coração.

As palavras são tudo isso,
Podem ser muito mais,
Elas multiplicam-se infinitamente,
De acordo com o que pensamos ou sentimos...

Muitas vezes poderemos,
Utilizar muitas palavras,
Para poder-mos então,
Expressar sentimentos singelos e simples,
Como faço agora...

O que pensei em te dizer,
Com todas estas palavras,
Foi o quanto me importo com você...

Foto de Fernando Poeta

Conseqüências

Não sou escravo de ninguém,
Apenas do que sinto e penso.
Não pertenço a quem quer me dominar,
Pois domínio não é o que mereço

Persigo não apenas o que vejo,
Não apenas o que desejo,
Não apenas o que preciso,
Persigo o autodomínio.

Busco encontrar a perfeição,
Dentro do que é correto,
Do que é o exato,
Do que é necessário...

Do que foi e do que é,
Do que estará por vir,
Aperfeiçoar o que tenho de qualidades,
Assim que descobrir quais são,
Corrigir todos os erros,
Que como páginas de um livro inacabado,
Multiplicam-se com desdobramentos inexatos.

Busco a equivalência entre erros e acertos,
Para que no final,
Consiga um honroso empate...

Não sou o que desejo ser,
Mas entendo que ao tentar acertar,
O que vivencio hoje,
São conseqüências de meu atos.

Foto de Fernando Poeta

Sempre no Mesmo lugar

Dividiu-se em dois,
E nessa divisão surgiram cicatrizes,
E em cada cicatriz,
Um Aprendizado...

Em cada aprendizado,
Um sofrimento,
E o que se aprende através do sofrimento,
É o que nunca é esquecido...

E o que permanece,
E consolida,
E restaura o que um dia,
Foi dividido...

É a esperança...

É saber que não estamos sós,
Que muitos também sofreram esta divisão,
Que muitos aprenderam da pior maneira...

E que muitos às vezes são poucos,
Quando não percebem que não estão sós...

Quando estiver dividido,
Quando estiver indeciso,
Perceba que esta divisão,
De forma alguma...

Extirpará teu coração...

Foto de Fernando Poeta

Sereia

O navio naufragou,
Fui lançado na imensidão azul do mar.
Não havia salvação, percebi o inexorabilidade da morte,
Nos poucos segundos que achava que ainda restavam.

Poupei meu fôlego,
Para conseguir, ante o fim iminente,
Guardar em minha mente,
A última impressão deste mundo.

A beleza descortinava-se à minha frente,
Com muita clareza conseguia ver,
O fim chegando,
Adornado pela beleza do oceano...

Não havia mais o medo,
Nem o desespero,
Apenas o extasiante estupor,
Ante o que contemplava.

Com o corpo dormente, a alma liberta,
A vegetação marinha a minha volta,
Cardumes coloridos de peixes, passando ao largo,
Observavam minha queda.

Ao fundo cheguei,
E aguardei o fim,
Então tão próximo dele,
Achei estar em um sonho, e percebi que delirava...

A minha frente rapidamente,
Algo se aproximava,
Com movimentos ondulantes e rápidos,
Conseguia perceber apenas a forma, e então meus sentidos foram embora...

O tempo, não sei dizer,
Vivo! Eu estava vivo,
Como isso aconteceu?
Qual a explicação para minha salvação?

Em meio a meus devaneios,
Ouvi um canto, belo, suave e atraente,
Atraiu meu olhar,
Para arrecifes formados ao longo da praia.

Avistei então uma lenda,
Avistei o que só poderia ser,
O que os antigos denominavam,
Sereia...

Cachos de cabelo negros como ébano,
Corpo sinuoso até o quadril,
E longa cauda escamada, verde como as águas claras,
Terminando em enorme nadadeira...

Olhava em minha direção,
Continuando seu canto,
Acariciando seus cabelos,
Mantendo nos lábios um sorriso cintilante...

Cantava minha salvação...

Encontra-me no seio de sua morada,
Chegou a mim,
Percebeu que morria,
Colou seus lábios as meus.

Arrastou-me assim,
através das águas frias,
Até deixar-me na praia,
Até deixar-me salvo.

Aguardara-me ver acordar,
Para dar-me adeus,
E então ao seu lar,
Poder retornar...

Lançou-se às águas,
Levando consigo,
O que então deixara,
Meu coração partido...

Foto de André Lajunza

AQUELES PASSOS

AQUELES PASSOS

OUVI uns passos na calçada,
Me pus logo a imaginar.
Seria ela, minha amada ?
Que resolveu enfim voltar.

O coração bateu no peito,
Que parecia querer pular.
O corpo tremeu dum jeito
Que, pensei que iria desmaiar.

Fiquei atento e esperando,
Bater à porta e me chamar.
Mas os passos foram passando,
Foram passando sem parar...

De quem seria aqueles passos?
De quem seria, pergunto eu?
Não era dela, aqueles passos,
Pois em minha porta não bateu.

De quem seria aqueles passos?
De quem seria, pergunto eu?
Não era dela aqueles passos;
Porque ela eu sei, já me esqueceu !.......

Lajunza

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