Amor Virtual

Foto de Anjinhainlove

Carina acabara de desligar o seu computador. Sentia-se excitada, renovada, feliz!
Descobrira um mundo novo, onde podia ser ela própria, viver, ter amigos, e agora, apaixonar-se!
Carina estava perdida no mundo virtual. Frustrada por não ter sorte no mundo real, refugiou-se na Internet, correndo salas de chat, conversando com completos desconhecidos que no momento completavam a sua vida. Estava tão “virtualizada” que não conhecia mais o mundo real.
Ao chegar do trabalho, fazia umas sandes e preparava uma bebida, enquanto o Windows iniciava. Digitava o seu e-mail e o seu nickname e por aí ficava o resto da noite, até às altas horas, quando todas as pessoas dormem ou passam tempo com amigos, mas ela era diferente, passava as suas noites, os seus dias, as suas tardes olhando para um monitor. Um monitor frio mas que emanava tanto calor, tanto ambiente para ela que se tinha tornado um vício vital.
Para parecer bonita na sua webcam, Carina cuidava do seu rosto diariamente, tinha se tornado numa mulher linda, atractiva, mas as únicas pessoas que tiravam proveito dessa mudança eram os seus “amigos virtuais”.
Um dia feliz para Carina, era o dia em que o seu Windows corria sem mostrar nenhuma caixa com a mensagem “Erro encontrado.”!
Até que aconteceu… o amor! Apaixonou-se virtualmente e agora o teclado era a sua boca, o rato as suas mãos, o monitor o seu rosto e o CPU o seu coração. E do outro lado do vidro, dentro de uma caixinha pequenina, estava aquele homem que ela desconhecia mas tanto amava. Viviam em países diferentes, nunca se tinham visto, mas de qualquer maneira, amavam-se!
O que era “só” vício tornou-se obsessão. Carina deixou de sair, de falar com amigos, já não atendia o telemóvel, a sua assiduidade no trabalho diminui, as contas começaram a acumular-se, os amigos a queixar-se, o seu mundo a desmoronar-se, mas Carina aparentemente vivia numa bolha. Todo o mundo podia acabar, podia haver fogo, inundações, animais selvagens, mas dentro da bolha estava ela e o seu computador em perfeita harmonia. Um ser humano e um ser inanimado.
O computador tornou-se a sua vida. Tinha um homem a quem amava e era correspondida, nunca tinha conseguido isso no mundo real, por isso adorava ao mundo virtual como um fiel adora o seu deus.
Quando decidiu encontrar-se com o seu “namorado virtual” o seu mundo explodiu. O sorriso na sua cara mantinha-se todo o dia, qualquer música era melodia para o seu ouvido, estava a viver o melhor tempo da sua vida e isso para ela era tudo.
E o dia finalmente tinha chegado. Carina teria de se encontrar com ele num restaurante da cidade vizinha. Sentia-se amedrontada quanto à segurança daquele bairro, mas pelo seu amor faria tudo, até jantar na rua.
Ia passar um fim-de-semana no hotel mais conhecido da cidade com ele, e se tudo corresse bem, regressariam para a sua casa e ficariam lá durante mais um tempo. Estava tão feliz que não conseguia prever o mal que se aproximava.
Quando chegou ao restaurante ninguém estava lá ainda. Sentou-se na mesa reservada, brilhando de felicidade e tremendo de nervosismo. Até que ele entrou! Estava usando aquela camisola que o favorecia e deixava Carina doida de vontade de o ter nos braços. Levantou-se e deu-lhe um abraço tão grande que as pessoas em volta ficaram a olhar para o casal e numa gargalhada sentaram-se e ficaram a olhar-se mutuamente, como quem olha para a sua estrela de cinema favorita. Ele tinha um rosto tão sereno, tão sincero, tão apaixonado! Carina sentia-se nas nuvens, e, por baixo da mesa, beliscou-se para ter a certeza que não estava a sonhar.
Jantaram, falaram, sem tirar o olho um do outro por um segundo, mesmo sabendo que ambos estavam tão corados que a sua cor se aproximava à da toalha da mesa, vermelha como o sangue.
Na hora da saída, Carina agarrou-se ao braço do seu amor, e não o largou até à saída, até que aconteceu o momento mágico. Os seus lábios uniram-se e conjugaram a sua paixão num beijo quente e interminável, deixando Carina em estado de transe, como se estivesse sob um ponto rodeado por um universo interminável, com estrelas, pedras, faíscas e todo o tipo de coisas brilhantes a rodar a alta velocidade à sua volta. Tudo isso acabou quando sentiu um forte puxão no seu braço. Um homem suspeito vestido de preto agarrara o seu braço e puxava-a enquanto que o seu suposto “amor virtual” aguentava a sua cabeça e tentava tapá-la com um saco. A última coisa de que se lembra foi se uma forte pancada na cabeça, não se lembra de quem pois a sua visão já tinha sido bloqueada pelo saco.
Acordou num quarto escuro, húmido, deitada numa cama suja, mas não estava amarrada. Sentou-se e viu que ele se encontrava à sua frente, sentado numa cadeira de madeira que não sabe como conseguia suportar o peso daquele homem.
Ele levantou-se, deixando a fraca cadeira soltar o guincho como se suplicasse a sua morte. Pôs as mãos na algibeira e disse:
-Achas mesmo que alguém como eu se entregaria a uma desconhecida virtual? – E soltou uma gargalhada irónica como se não esperasse resposta por essa ser demasiado óbvia.
-Mas… – E é bruscamente interrompida por um estalo na face esquerda, deixando o seu cabelo todo despenteado e caído à frente dos olhos.
-Jay! Vem aqui! Vamos tratar desta! – Grita ele ao outro homem de negro que estava sentado à mesa a ler uma revista sobre automóveis.
O homem aproximou-se, enquanto o seu colega forçosamente fazia subir o vestido de Carina, deixando as suas pernas todas à mostra. Logo Jay se juntou e arrancou as cuecas de Carina com uma faca ameaçadora, o que fez com que Carina paralisasse de medo e soltasse lágrimas secas pelo canto dos olhos que fechava com tanta força que sentia dores. De repente sentiu as dores da violação. Sentiu seu corpo ser invadido por cada um deles com tanta dor que preferia morrer. Sentia cada bater do coração, cada partícula de ar que libertada de seus pulmões magoados, sentia cada músculo dos violadores, cada gota de suor, todas as palavras, toda a dor.
As suas roupas raspadas estavam sujas de sangue, as suas pernas arranhadas, havia manchas negras por todo o seu corpo, tinha a cara negra do estalo que levara, o cabelo sujo, imundo, mas a visão mais feia era a da sua alma. Estava partida, imunda, suja, ensanguentada, arranhada, morta. Toda a sua mente se focava naquele homem que só era bom quando atrás de um vidro frio e duro.
Não sabia qual seria o seu futuro. Poderia morrer e terminar sua vida. Poderia viver e ser condenada a vaguear pelo planeta sem alma, com um coração quebrado e um corpo violado.
Qual das duas opções a melhor?

Foto de Fernanda Queiroz

Um bom texto, rico em narrativas.
Alguns trechos não entendi, como a encontrar de camisola no restaurante e ter tuas cuecas arrancadas.
Como deixou o final em suspense estou torcendo para que Carina sobreviva a tanta brutalidade e consiga se refazer e encontrar um grande amor.
Fernanda Queiroz

Grande abraço.
Fernanda Queiroz

Foto de Anjinhainlove

Oi Fernanda, antes de mais quero agradecer por ter lido o meu texto!
Quanto aos trechos eu explico: é a diferença do português do Brasil para o português de Portugal, porque "camisola" no Brasil é "camisa" e "cuecas" no Brasil é "calcinha"!
O final preferi deixar à imaginação de cada pessoa que ler a história para que possam reflectir e dar asas à imaginação!!

Porque mais lindo que o amor, é só mesmo escrever sobre o amor:

Cheila Pacheco

Foto de francineti

Achei interessante o seu texto, mas confesso que o final me frustrou. Também tenho um amor virtual, mas nossa estória eu já escrevi. Ela é linda. Estou concluíndo para publicar aqui. Beijos Franci.

Foto de Anjinhainlove

Cara francineti,
Agradeço o seu comentário e ter dispensado algum tempo para ler a minha história. Também em dediquei algum à sua história e você está de parabéns!

Porque mais lindo que o amor, é só mesmo escrever sobre o amor:

Cheila Pacheco

Foto de angela lugo

Olá poeta tudo bem... Então eu também não tinha entendido a parte da camisola no restaurante, mas você já explicou no comente da Fernanda.. Bom eu gostei do seu texto porque gosto da realidade escrita, e realmente você narrou uma história que muito acontece no dia-dia, eu li um livro... Só se o computador deixar... E creio que é por aí, acaba-se sendo um vício para aplacar a solidão no início acha-se que tudo é normal, mas é preciso muita cautela para falar com estranho nos dias de hoje... E também não deixa de ser um alerta para os que sofrem de solidão e querem esquecer na frente da tela do PC... beijinhos

ângela lugo

Foto de Anjinhainlove

Cara Angela, esta história foi retirada da minha própria vida, em certos pontos. É que eu própria já fui uma viciada em net e sei tudo o que se sente quando temos um mundo à nossa frente... felizmente não me aconteceu o mesmo que à Carina quando conheci as pessoas, é que já fui a um jantar de convívio com mais de 30 pessoas que conheci virtualmente, felizmente tudo correu bem e em Dezembro irei a mais um!
Agradeço o seu comentário e ter dispensado algum tempinho para ler a minha história.

Porque mais lindo que o amor, é só mesmo escrever sobre o amor:

Cheila Pacheco

Foto de ivaneti

E um pouco de minha historia...
e de muitas por ai... so falta se
agarrar ao computador na hora H... gostei muito linda...
Ivaneti

Ivaneti

Foto de Anjinhainlove

Cara Ivaneti, tanto é a sua história como é a minha...
Agradeço a sua atenção e o seu comentário.

Porque mais lindo que o amor, é só mesmo escrever sobre o amor:

Cheila Pacheco

Foto de Izaura N. Soares

Olá, Anjinha, gostei do seu texto muito lindo!
É amiga, infelizmente isso acontece mesmo no mundo virtual.
Mas temos que ter discernimentos e sabedoria para não nos envolvermos com tanta displescência e porque não dizer: inocência, não é mesmo?

Adorei o desfecho do seu texto.

Um abração no seu coração!

Tenha um bom dia!

Foto de Anjinhainlove

Cara Izaura,
Infelizmente, quando me entreguei às "maravilhas" da net, não sabia o que se seguiria, mas posso mesmo dizer que não foram só coisas más, pelo que não me arrependo, porque o mundo virtual tornou-s o meu mundo real...
Obrigada pela atenção e pelo comentário.

Porque mais lindo que o amor, é só mesmo escrever sobre o amor:

Cheila Pacheco

Foto de Mitchell Pinheiro

Grande história cara amiga. Na atual situação em que vivemos já é difícil de se confiar nos conhecidos, pior ainda é se entregar ao desconhecido. infelizmente existem pessoas inocentes e ingênuas que caem nas garras de desgraçados como estes. um abraço

Tudo que é humanamente possível eu posso conseguir!

Tudo que é humanamente possível eu posso conseguir!