Orvalho

Foto de Carmen Lúcia

Rainha do cais

Mais que um simples cintilar
Tênue gota sã de orvalho
Tanta estrela a destilar
Pelo mar, seu assoalho
Seus tão súbitos queimores.
A rosa, tangendo o cais
Turge escuros hormonais
E implora: Luz, não demores...
Vendo-a assim, intumescida
De anseios desfalecida
Carne em sismos abissais
Vêm ao espelho-mar cardumes
Dalvas, qual mil vaga-lumes:
Goza, rainha do cais!

_Carmen Lúcia/Lou Poulit

Foto de Lou Poulit

Poulit em Versos

Quando eu era adolescente, meu pai incentivava os filhos a estudarem, para as provas finas, usando uma estratégia muito sedutora: Me diga o que quer ganhar no fim do ano, se for aprovado em lhe dou. Era um tal de estudar como nunca antes. Em certa ocasião meu irmão Aristeu, tratado por Teco, um ano mais novo que eu e hoje arquiteto, pediu um violão, de verdade, e se comprometeu a estudar para passar de ano. O Velho achou que ele poderia ter escolhido uma coisa mais apropriada a um garoto de 12 anos, mas não deixaria de cumprir sua parte no trato. Pois bem, o Teco passou de ano fácil.

Numa noite, chegando das minhas amadas peladas em rua de paralelepípedos, ou das caronas, pendurado nos estribos dos bondes, até hoje tradicionais do bairro Santa Teresa, morro contíguo ao centro do Rio de Janeiro, entrei em casa todo suado e sujo. Eu amava, mas minha mãe detestava isso: Direto pro banho, menino! Não encosta em nada! Como eu adorava esportes. Sentir o corpo suado, o corpo-a-corpo às vezes perigoso das peladas. Gostava de sentir o limite dos músculos, de ser íntimo da dor física controlada. Jogávamos mesmo à noite, a luz tênue dos postes distantes, ainda do tipo incandescente, refletindo nas pedras do calçamento. Que saudade da minha meninice... Bem, então voltando ao violão, entrei em casa e dei de frente com ele em cima da cama do meu irmão.

Fiquei fascinado. Era lindo e novinho em folha, brilhava demais. De boa marca e corpo grande, era até algo desproporcional para meu irmão. O velho não fizera por menos, mas era seu jeito. Era calado, emburrado em casa, gastava dinheiro nas farras, porém nunca foi sovina com os filhos. Não resisti à tentação e peguei o violão para experimentar. O som era bem mais alto do que o dos violões que conhecia, e chamou a atenção do Teco, que logo apareceu. Reconhecendo-me suado, devolvi o instrumento ao seu dono. Afinal de contas, eu também havia passado de ano.

Começaram as aulas de acompanhamento, os primeiros acordes, mas também logo vieram as primeiras bolhas na ponta dos dedos. Meu irmão não superou essa fase e em alguns poucos meses, o violão já havia ganho um lugar escondidinho para ficar, entre o guarda-roupas e a parede, no canto quarto. Ficou ali por vários meses. Um dia, vendo-o ali abandonado, tornei a pegá-lo e me assustei quando ouvi algo cair no chão. Despencado sobre os tacos de madeira clara, estava um livreto que me apressei em pegar do chão. Era um Método Prático Para Violão e Guitarra. Folheando-o compreendi que eram cifras para acompanhamento. Foi um momento mágico. Não pude naquele momento imaginar, que era apenas um pequeno instante, o despertar de um amor que me acompanharia, uma emoção que se repetiria pelo resto da vida.

Lendo o método, exercitando e, principalmente, observando alguns colegas que já sabiam tocar mais que eu, em pouco tempo já sabia o básico de acompanhamento e já me arriscava em solos iniciais. Gostava tanto que suportei as bolhas. Como bom aqüariano, não me contentava em tocar e cantar as músicas da moda. Com pouquíssimo tempo de aprendizado, já fazia minhas primeiras composições, ainda muito simples e com letras ingênuas. Mas era nisso que queria chegar desde o início desse texto: o violão me levou a começar a compor letras. Na escola, minhas notas em Português (na época se dizia Linguagem) eram sempre as mais baixas, detestava. Que ironia, hoje amo escrever.

Embora adolescente, muito novo e sem experiência de vida, quando escrevia letras para as minhas músicas (compunha ambas ao mesmo tempo) tinha a sensação plena de ter domínio sobre o que escrevia. E vivenciava aquelas emoções de verdade, sem tê-las jamais experimentado. Os adultos da família não entendiam bem. Mas nunca me senti inseguro. Era como se eu já soubesse fazer aquilo há muito tempo. Vejam como, com cerca de catorze anos ainda, eu me via “grande”, até pretensioso, nessa letra que pertence à minha primeira composição:

“Vida, vida minha
Não te perdoarei jamais
Por ter levado o molequinho...
Isso não se faz”.

Ora, eu me esqueci de que ainda não era mais que um moleque! Embora já andasse com mania de ralador, não tinha ainda tramas de amor para contar. Mas vejam o tipo de sentimento implícito nessa outra letra, da mesma época ou pouco mais:

“Vou partir
Pra bem longe
Vou-me embora
Deixo aqui meu coração
Minha casa, meu portão.

Ah, se um dia
Eu pudesse voltar
Eu iria ver de novo
Minha terra, meu lugar
E os meus tempos de criança
Poderia recordar”.

Alguns anos depois, pela primeira vez na vida senti a receptividade de pessoas que não eram familiares. Me inscrevi, por exigência de um grupo de amigos, num festival escolar de música. Escolhemos juntos quatro músicas minhas. Aquela que mais gostávamos foi apresentada pelo grupo todo, mas estávamos tremendo demais para tocar e cantar no palco improvisado. Os jurados não ouviram nada e “Santa Terra” foi desclassificada. Vendo minha tristeza, uma jurada, professora de inglês, veio me explicar o critério utilizado diante da dificuldade de julgar. E nesse dia aprendi a amar e odiar os critérios.

Porém, como reaprenderia em muitas outras ocasiões futuras, a tristeza dá sentido à alegria, assim como as sombras à luz. Com as três músicas restantes, que apresentei sozinho, voz e violão, consegui o segundo (Vou Partir), o terceiro e o quinto lugares do festival. Não obtive o primeiro lugar, mas os prêmios foram pagos em dinheiro e voltei pra casa rico, considerando a situação financeira da época. Mais rico do que o vencedor, que tinha uma música belíssima.

Os anos vieram e a vida mudou muitas vezes. Os campeonatos estaduais de vôlei, o trabalho, a faculdade, o casamento e o descasamento, a vida é uma sucessão de sonhos e pesadelos. Mas também uma grande escola e isso se reflete no produto do artista. A poesia seguinte na verdade é letra de uma música, composta no anos noventa. Sempre fui um apaixonado pelas manhãs. Em uma prosa cheguei a afirmar que elas também foram feitas à imagem e semelhança do criador. Tendo que recomeçar minha vida, tornei-me um amante ainda mais apaixonado pelas manhãs, a ponto de amalgamar as minhas amadas e as “Nossas Manhãs”:

“Porque são as manhãs
tão humildes manhãs
Saram o que as noites cortam
Lavam, abortam estrelas vãs
Vem, que me desperta
Essa rosa madura
Sob a renda flerta
Captura o meu instinto, vem
Me joga no orvalho do jardim.

Vem de mim por ruas dormidas
Que dores banidas
Não despertarão tão cedo
E ninguém contará a ninguém
Que ainda tenho medo
Porque são as manhãs
Tão humildes manhãs.

Porque são as manhãs
Tão lúcidas manhãs
No estreito vão da janela
Um corpo que foi meu se esfarela
Num rastro distante
Guardo os pássaros no peito claro
Ardo e perto me declaro amante
Vestindo as chamas
Que restam das velas
Dançando com elas beijo
Beijo e protejo o seu despertar.

São nossas primícias, nossas milícias
Cavalgadas e reconquistas
Quando o sol entrar pelas janelas
Jamais sairá nas revistas
Mas são nossas manhãs
As mais belas manhãs
As mais belas manhãs”.

Não considero que esse texto tenha esgotado o assunto. Gostei da idéia de mostrar poemas e letras de músicas como pedaços pedaçudos de uma sopa auto-biográfica. Creio que aqueles que tenham gostado poderão esperar mais.

Foto de Lou Poulit

Ao Largo

Ao largo, o veleiro se desabriga

Do sonho frágil do cais viçoso

Olhando a lua, em seu caminho vicioso

Ao rés dos telhados da vila antiga;

Suas lonas, de estrelas abarrotadas

Túmidas vergam amadeirados mastros

Porque não são estrelas, são astros

Que lhes esgarçam de canções desatadas.

Mas são imensos os perigos insuspeitos

De se amar ao largo assim, e tanto

Os olhares plenos vagueiam estreitos

E a boca beijosa já basta ao espanto.

Então, ao cair da lua sobrevem o escuro

No chão da rua, de destino incerto

O poeta mendiga d’alma o pão duro

E uma gota de orvalho que sacie o deserto.

O silêncio da madrugada é soberano

E sob a clava transita a alma em julgado

Pois vem ao mundo para amar, humano

Mas nem tanto, por ser humano, é amado.

O rosto antes plácido agora lateja

O golpe súbito, que à dignidade exila

Mas o mar revolto, de água ainda beija...

O exílio é melhor que a mágoa de ferí-la.

Ao largo, o poeta trama a amada em prece

Se fortalece, recompondo areias suas;

Abarrota de céu suas veias, exíguas

Que o galo já canta... Em breve amanhece.

Foto de Lou Poulit

Quem daria por seu sonho um vintém?

Quem daria por seu sonho um vintém...

E poria em suas mãos vazias

um raio de esperança, um querer-bem...?

Quem jogaria na fonte das suas entranhas

um desejo metálico de se perpetuar,

onde não ousem tocá-lo mãos estranhas?

Quem vestiria o poeta da própria nudez,

da própria luz e da própria prece...

E que beijo habitaria a sua prenhez?

Que tez mordida seria, branca, seu agasalho,

quando a brisa trouxer o hálito refrescante

sobre as estrelinhas que habitam o orvalho?

Já é feliz esse pássaro sonhador,

que não cabe no peito por queimores agrisalhado,

nem na fibra sua, íntima das dores do amor.

Já é feliz essa tão nua mulher, enquanto vem

no passo do sol, rico senhor do tempo,

trazendo guardado, tépido, seu túrgido vintém.

Foto de Enise

perguntas e respostas

Como saber
Se as palavras
Foram as certeiras...
Como saber
se as promessas
foram as verdadeiras...
Como saber
Se o orvalho
Abriu um atalho
No meu querer...
Como saber
Se minha entrega
Foi pior que a encomenda
Ferindo o meu viver...
Como saber
Se as respostas
No meio do caminho
Desistem...
Como saber?
Sem perguntas
As mentiras
Não existem...

Foto de Lou Poulit

Donde Seu Olhar Me Entranha

Donde o seu olhar me entranha

n’alma a sanha de ser mais nobre

e de gastar cada cobre seu

pagando às estrelas lá do céu?

Donde? Ele arremeda um nicho,

espelhado mar de um calmo cais

onde o veleiro sonha com a paz,

repousa as lonas do capricho:

Devoção d’alma cessa jamais.

Donde o olhar sereno esconde

o lapso ingênuo, contundente?

A lápide aceita o nascente,

valente, inerte e soberana

de si, do sol e das estrelas,

de grandeza e miséria humana,

mísera de arroubos, querelas...

Dona das lágrimas de orvalho

deita o olhar, um pálio ao meu pisar,

passar do meu pesar doído,

de lembranças tão vãs vestido.

Donde água doce me oferece,

fadado a possuir carinho

de ondas que me assanham o coração,

ventos se arremessam ao caminho,

mastros, bandeiras e cordames?

Me acossam com fulgores infames,

que emprenham de múltiplas cores

minhas dores de parto, às portas

de íngremes versos, parcas rimas

que julgava, há muito, já mortas!

Como voltasse do vindouro

na mesma trilha em que me embrenho,

sob um poente quente e louro,

prestes a vestir o negrume...

A abraçar seu lume me empenho.

Porque seu olhar permanece

em mim e me vê quando, em prece,

reconstruo n'alma o seu altar.

Porque as dores, quaisquer que sejam,

nunca almejam vencer seu olhar.

Foto de Ge Fazio

Celebrando a Vida

Busco mudar o meu olhar...
Fixo-me nos verdes campos, nos aromas.
De flores silvestres, nos pássaros que chegam.
E seguem bailando em revoada no céu azul.

Há vidas que se completam nesse lugar.
Do minúsculo pólen transportado de
Lugar para tantos outros lugares...
Formam o celeiro da vida.

Cai uma fina neblina a minha volta...
Sinto o cheiro forte do mato verde...
Da terra molhada... Sinto o cheiro
Da vida que germina aqui... Nesse lugar.

Chegam pequeninas borboletas...
Coloridas, alegres, e pousam mansamente.
De flor em flor... Parecem querer falar...
Gritar... Salvem a natureza.

Dissipam as pequenas nuvens e surge
Majestoso os raios de sol por entre as
Gotas de orvalho que gotejam... Formam
Um feixe de tons multicoloridos...

A minha frente um belo arco-íris...
Ouço uma canção... Ah! Minha imaginação!
Olho ao lado e vejo um anjo e um violino.
Entoando uma canção... Ouça e sinta...

Germinar a vida!

Ge Fazio

Foto de Ge Fazio

Marcas de um Tempo

Gotejas o orvalho sobre a relva densa...
Numa tarde do frio inverno.
Pássaros recolhem no aconchego de
Seu ninho... Alimenta, aninha.

Toques de emoções emergem de
Um coração sem par... Solitário.
Num olhar através do tempo
Da distância sórdida...

Goteja o amor de um olhar
Terno, transparente que outrora.
Passou por aqui... Chegando
Pelo velho rio de águas claras

Vem o vento...A chuva e o sol
As tormentas que transbordam
Lavando em enxurradas os rastros
De seus passos... Levando o aroma do amor.

Restam agora as marcas de um tempo.
Os vincos de uma saudade cravejada
Na pele, nos contornos que resguarda...
Protege um invólucro do amor perene.

Gotejam lá fora o orvalho.
Numa rua nua, crua sem nome e sem dono.
Resta agora um jardim sem cor, sem aroma.
A espera do amor que faz germinar.

Germinar de novo o sorriso...
O brilho do olhar da esperança
Junto às folhas secas de outono.
Renasce um jardim em flor...

Ge Fazio

Foto de Lou Poulit

As Nossas Manhãs

Porque são as manhãs
Tão humildes manhãs
Saram o que as noites cortam
Lavam, abortam estrelas vãs
Vem que me desperta
Essa rosa madura
Sob a renda flerta
Captura o meu instinto, vem
Me joga no orvalho do jardim.

Vem de mim por ruas dormidas
Que dores banidas
Não despertarão tão cedo...
E ninguém contará a ninguém
Que ainda tenho medo...
Porque são as manhãs
Tão humildes manhãs.

Porque são a manhãs
Tão lúcidas manhãs
No estreito vão da janela
Um corpo que foi meu se esfarela
Num rastro distante
Guardo os pássaros no peito claro
Ardo... E perto me declaro amante
Vestindo as chamas
Que restam das velas
Dançando com elas, beijo
Beijo e protejo o seu despertar.

Porque são de carícias
As nossas milícias
Cavalgadas e reconquistas
Quando o sol entrar pela janela
Jamais sairá nas revistas...
Mas são nossas manhãs
As mais belas manhãs.

Foto de THOMASOBNETO

Rastro de Amor

RASTRO DE UM AMOR

Saudade é como o vento...
Que bate na alma revelando,
As pegadas acobertadas pela dor!
Singrando lembranças, de um amor!

Tristeza é o orvalho traduzido...
Em aceno, a perfídia ilusão...
De promessas vazias, esquecidas...
Na esperança deste ingrato coração!

Prelúdio de sofrimentos.
Abrindo trilhas sinuosas...
Que persistem na memória.

Irradiando sofrimento.
Numa fantasia de delírios...
Onde a vida perde o seu brilho!

THOMAZ BARONE NETO

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