Blog de Arnault L. D.

Foto de Arnault L. D.

Pequeno Sol

Era o sol... Ah, era o Sol...
Que iluminava então,
e abraçava a tudo,
de mim a imensidão
e aquecia, e era lindo.

É noite, não mais o tenho,
no entorno está escuro.
Acendo o fogo e olho
e o sol nele procuro.

Não cobre além de metros,
não comporta amplidão
e se aproximo muito fere.
É mais para olhar então,
o fogo que ao Sol faz menção.

Aquece um raiar ao peito,
luz evocada de um verão.
Faz sonhar, chama a queimar
de um calor extemporão.

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Das muitas vidas

Pelas infindas possibilidades
de cada história preterida,
de cada plano inconcebido
no decorrer das idades
a nos erudir a vida.
nas quais volto sem ter vivido.

Da curva que troca de estrada
e perde-se noutra e avança,
nos roubando a direção,
que após vê-se desperdiçada.
Perdida em toda esperança
de retornar aquela mão.

Resto como um erro de curso,
um deslocado de onde estou.
Algo de mim caiu no caminho.
E não há nenhum recurso
que torne ao que se acabou.
Em canto distante definho.

Como seria se ficado
qual lágrima, riso e prazer?
Nunca saberei... nunca saberei.
Que teria sido, acontecido
se naquela vida eu fora viver
De onde foste e eu não fiquei.

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Livre tradução

Escreva algo, sem sentido qualquer.
Talvez, para alguém ver um sentido,
as palavras transbordam mister,
parece que não as tinha escrevido...

Apenas deixe fluir, sem conter,
sem começar ser ponderado.
Provavelmente ninguém vai entender...
esse idioma transloucado.

Sou aprendiz de aprender a mim,
meu porta-voz do que me escapa,
as vezes, troco talvez, por não e sim...
sei da direção, não tenho mapa.

Quem não falou menos que devia,
ou num turbilhão de verbos se perdeu
sem conseguir dizer o que sentia,
ou tudo errado transcreveu?

Não há caminha certo, nem seguro,
quando se trata do pensamento.
Não há palavra exata à emoção pura
apenas a saiba... apenas sentimento.

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As cruzes

Aderidos aos passos,
os problemas e as penas,
as aflições malditas.
Sem adiantar espaços,
veredas que mil trenas
mecem tal infinitas.

Estarão lá... comigo.
Junto a beleza das águas,
das luzes, das flores, tudo.
Nas rotas em que prossigo,
trôpego, pisando mágoas,
tentando ficar desnudo...

Mas, não do traje que conto.
É além dele... é da pele.
Porém, não há como despir ...
esta é como é, e pronto.
sem desligue, mude, sele.
E eles vão por onde eu ir.

No pensamento, no suor,
nas rugas e enxaquecas...
nos calos n’alma e dedo,
na estafa e no não sabor
que se liga as coisas secas
e refutam até o medo.

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Ainda

Todavia, o amor resiste.
No viés das coisas,
aos pontos finais,
a lógica.

E todavia o amor resiste
ao contrário dos fatos,
a ação do tempo,
a imersão no tempo...

E todavia o amor resiste,
ao que ama
e ao que é amado.

e todavai a amor resiste,

na dor,
no vácuo do impossível.
No inominável.

E todavai o amor resiste
onde nada mais existe.
Na sombra que passa
entre o mover dos ponteiros.

Todavia o amor resiste.

Para aquele que ama
resiste...
toda a via... o amor resiste.

Foto de Arnault L. D.

Minha linda

Minha linda, meu pensar em ternura,
a que me volta se penso no amor
e que se alonga através das histórias.
Permanece sobre as marés, flui segura
feito ponto de luz as nuvens a transpor
sobre o céu nublado das memórias.

E se esta névoa me torna isolado,
nasce então de dentro da cegueira.
Pois meus olhos não me levam à fora;
dentro, minha linda é ao meu lado.
Se não corro me alcanço, me alcança inteira,
tal sombra ao meio dia, que em si mora.

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Ao velho Johnny

Johnny, meu velho amigo,
o que diria agora?
Me pergunto... e a resposta
é o somar que consigo
das memórias de outrora,
estendidas à mesa posta.

Você foi no tempo embora,
o meu, corre mais um tanto.
Mas, ainda é o meu amigo
que o seu lembrar aflora,
já sem percorrer o pranto,
só saudade de estar contigo.

Meu amigo, velho amigo
foi para mim e ainda o sou,
no porquê se faz lembrar...
Nas venturas que fundo abrigo
na matéria que me formou
e enquanto eu for, irá estar.

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Abstrata e desconexa

A propensão de pensar,
medir, somar, entender,
destoa do cansaço... o nutre.
A idéia aborta incompleta.

A poesia torna-se abstrata, ar,
vezes o sinto na pele, no éter...
Mas, não consigo d’asa do abutre,
salvar a cada borboleta...

Conexão, inspiração, sonhar,
fragmentados todos sem verter.
Na boca, o cansaço, tal salitre
a consumir todo gosto e faceta.

O sentir é agora o raciocinar...
O sentir: Indecifrável de dizer,
rápido e errático morcego, entre
o final do Sol e a noite feita.

Resta-me o súbito, zaz, espiar:
Pirilampos, meteoros, a vésper...
Sem poetar, só ver e deixar que entre
aos olhos... e ao peito se meta.

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Fora do Prazo

Se houvesse, amor ausente,
uma trégua para nós,
eu iria estar contigo,
lhe traria um presente...
Novamente o mundo a sós
abrindo espaços sem perigo.

Poderia ser a natureza,
que impele aos desejos,
impele a fazer promessa,
pele arrepia sem defesa
à eminência dos seus beijos,
em que a volúpia se confessa.

No ruborizar do rosto,
na língua o gosto tão bom
que seu corpo inteiro aboca.
Que ao si provar exposto,
espontâneo feito um dom
transcende-me a fome louca.

De alimentar-me a alma
da sua carne, que saliva,
até o soluçar do gozo
e o êxtase pousar a calma.
E não mais posto a deriva
retornaria... ao lar ditoso.

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Sementes nos bolsos

Eu trago sementes no bolso,
nos lábios, alguns assovios.
Acordes abertos e esparsos
das músicas que à mente ouço.
Soam preenchendo os vazios
do cotidiano que esgarço.

Na guitarra, as notas trago,
que ainda não foram tangidas;
na língua o sabor das palavras,
sal, açúcar, acidez, que trago
dos falares e nas bebidas
no degustar do corpo trava.

Preso de mim, em mim se encobre.
No potencial sem uma trilha.
Sou um desconhecido íntimo,
minha fina pele a carne cobre.
O espelho d água o céu espelha,
e o céu lhe guarda a profundidade...

Mergulhado, imerso as entranhas,
nos bolsos a vestir as mãos.
Olhando nas poças o luzir esboços,
assoviando canções estranhas,
desconhecidas, e minhas são.
Eu trago sementes nos bolsos.

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